domingo, 19 de julho de 2009

Depois eu conto "Dia seguinte IV" conto maria melo Paraná Brasil Roteiro para cinema um filme de amor...


Qual é sua história, perguntou o homem que indagava...
para o casal de brancos,
que já estavam chorando.

"Bom, é relativa a verdade que ela nos fala,
toda as histórias da infância que ela contou são verdadeiras,
mas não aconteceram com ela e sim com nossa filha.
Tínhamos uma filha, branca, de olhos e cabelos claros como os nossos,
Tínhamos uma filha, confusamente jovem e atirada na vida,
que não temos mais,
ou não sabemos ter, pois ela fugiu de nós.

Depois de uma briga a nossa filha desapareceu.
O homem branco pegou um papel e mostrou
era um comunicado oficial às autoridades
sobre o desaparecimento de sua filha,
muitas buscas foram feitas mas não a encontraram.

Agora esta negra nos dá esperança
porque se conhece toda a história
de nossa filha tão intimamente
é porque a conheceu ou a conhece.

Queremos que a detenha...
não permita que ela se vá.
Pode nos dar noticias de nossa filha.

Do outro lado a negra disse:
Meus pais enlouqueceram! Estou aqui
na frente deles eles não me querem
mas querem alguém que desapareceu?...


Gostaria de falar com eles
agora, diante de todos, perguntou o homem que indagava.

A negra disse sim.

Levantaram-se e foram para a outra sala,
onde o casal ouvia tudo e já a esperava...

Querem que me prendam nesta delegacia?
Sou filha de vocês e não pratiquei nada de
errada, tão grave...

A mãe disse: quando esteve com nossa filha?
Estou sempre com ela,
será que vocês estão realmente loucos?

O que há de errado em ficar pretinha?
Se mudei de cor,
poderá ter sido a natureza, a ciência ou
quem sabe alguma outra coisa...

Meu namorado é negro, lembram dele?
Sumiu também, nem eu me lembro mais, direito, dele.
mas sei que vocês não gostavam dele.

Eu só quero voltar para casa,
mas não quero que abusem de mim,
tenho os mesmos direitos de todos os seres humanos,
de ir e vir, por acaso não sou normal?
E vocês vão continuar me tratando feito uma incapaz
de escolher a minha própria realidade?


Está certo vamos recebê-la em nossa casa
Mas você não é nossa filha,
fica claro, nunca adotamos nenhuma criança
negra, todos na nossa vizinhança
conheceu nossa filha branca,
e nunca viu nenhuma negrinha
em nossa casa... como pode querer nos convencer
que é nossa filha?

Se você concordar em não nos chamar de pais,
jamais... aceitaremos você..
e fique sabendo que queremos saber
onde você conheceu nossa filha...

Onde ela está,
sabemos que ela não quer voltar,
mas porque você está aqui?
O que quer nos contar?


Por absurdo que está história possa parecer,
como toda briga de família,
fala-se de tudo e no final
se entendem tão perfeitamente,
que o casal branco de olhos azuis
que de fato nunca haviam visto aquela negra,
nem ela a eles,
começaram a conversar familiarmente
sobre todas coisas possíveis
que acontecem só no seio de uma família...

Perguntava-se da tia, do primo, da avó,
da vizinha, das amigas,
dos problemas familiares, da saúde,
das viagens, dos planos,
enfim os homens que indagavam
ficaram muito confusos...

Deve ser uma questão de adoção!
Aquelas fotos da menina branca
lembravam a menina preta,
olhar da menina preta, lembrava
o olhar da mãe branca...

Pode ser uma questão genética.
nada ficou esclarecido, porem
ela voltou para casa com o casal branco,
parecia muito feliz,
muito a vontade,
como se ser negra
não representassem nenhum embaraço na sua vida,

Os homens que indagavam
olharam a mãe branca e moça negra,
o que você acha?

Penso que eles não resistiram a saudade
da filha e desejam ouvir as histórias
da vida dela, contada assim
por alguém tão estranho...
Isto vai lhes dar muito consolo.

Depois eu conto "Dia Seguinte parte III" maria melo Paraná - Roteiro para cinema um filme de amor


Será que você se lembra daquela negra
que foi encontrada no portão da casa
de um casal de brancos de olhos azuis...
os chamava chorando de meus pais?
E eles não a receberam, negando-se serem seus pais?

Você se lembra que a negra foi para a Delegacia...
Suspeita de quê?
Não sei, eu autora não sei...
do que ela foi acusada.

Ela declarava com certeza absoluta, ser filha
do casal branco de olhos azuis... eles a renegavam!

Então, finalmente chegou o amanhã...
depois daquela estranha noite,
o casal foi convocado para contar sua história.
A moça também.

Cada qual na sua sala, do seu modo,
seriam ouvidos, grafados, gravados, e tudo mais.
A negra não sabia, o casal não sabia,
ninguém parecia conhecer a verdadeira verdade,
aquela que estava camuflada
por detrás da cor, tanto da moça,
quanto dos pais.
Do branco e do negro da cor.


A moça foi dizendo muito alegre, como sempre:

Pois bem, é certo que não me entendia com meus pais,
que brigávamos sempre noite e dia,
é certo que eles detestassem meus atos,
e eu odiava o extremismo deles.

Mas nunca imaginei que pudesse acontecer isto,
Cheguei negra, segundo eles, segundo vocês,
segundo o espelho, como o carvão, como a noite,
eu demorei para acreditar,
Estou de fato negra.
Mas de fato sou-lhes filha.
De fato sou muito feliz, comigo mesma.
não sei por que eles se importam tanto com isso!

Vendo os meus pais, assim tão branquinhos,
com olhos tão lindos, azuis feito céu,
não muda a cor do meu amor,
ainda os amor, nem que ficassem verdes,
pois sei que são meus pais,
acho que só agora reparei na cor da pele deles,
na cor dos olhos, nos cabelos assim tão claros e ondulados,
tão leves... tão amarelados.
nada parecidos com os meus.
que são fixos, rígidos, parados.

pode se dizer, um verdadeiro emaranhados de fios.


Lembro-me de toda minha infância,
da imensa beleza dos meus pais,
que é claro não são os mesmos pais
que vejo hoje...mesmo assim, depois
de bem mais velhos ainda os amo.
Nossas brigas é uma questão de domínio.

A moça negra continuava contando histórias
sobre sua infância...


Na outra sala o casal branco a ouvia
atentamente.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

O cientista "máscara" parte II - conto maria melo brasil - Roteiro para cinema um filme de amor

Eu estava de vermelho. Perigo.
Afinal era a única pessoa que ignorava.
Surpresa com o tamanho de peixe,
fui seguindo as outras pessoas
que o iam empurrando para frente,
ele aos saltos e assaltos,
estava indo em diração à sala de trabalho.

As pessoas riam muito o aplaudiam
nos seus contorcimentos,
peixe não grita, não canta,
não ora, não chora, não implora,
mas dá o show.

"Vão comê-lo assim numa algazarra, danada!
Seja o que for, nada me é tão estranho!

O peixe entrou na sala,pulando e divertindo
o povo.

Fiquei em posição de espera... olhando
na direção dele, olhar sobre ele
e sobre as pessoas que o cercavam.

Pegaram-no, tudo muito alegre,
colocaram-no numa caixa leve, e colorida,
sobre uma mesa, fecharam-na suavemente.
e correram em suas máquinas, sentaram-se,
ligaram-na! Ligaram tudo, muitas máquinas,
ligaram-se, atentamente.

"Será que vão devorar o peixe?
Meu Deus, estarão cozinhando-o?
Vão mesmo comê-lo?
...Não, não vão, veio-me uma voz interior,
Ora, para comê-lo teriam que trocar suaS
ENTRANHAS por farofa!

Enquanto isto as máquinas e as pessoas trabalhavam árdua e
secretamente. Eu de vermelho, fiquei quieto
nada entendo do que fazem.

Passaram-se horas e horas até que de súbito, todos
se levataram e foram para a caixa onde o peixe
estava preso.

Abriram-na e saltou para fora um homem.
Estava ou era nu, tão nú quanto o peixe.
suas pernas e braços rigidamente
encostados no corpo. Saltava velozmente
pelo chão. Olhos esbugalhados, face
paralizada, sem palavras, gritos ou
gemidos ele se jogava para todos os lados.

Todos olhavam calados sem perder um só movimento.
Acompanhavam aquela estranha dança
naquele misterioso palco do tempo.

Depois de um certo momento,
abriram a porta, o homem olhou para aquela
claridade, parecia ser a primeira vez
que a via, mas a claridade era dele
conhecida, lembrava lá fora, lembranva água.

E saltou em muitos saltos em direção à porta.
Todos os seguiam em silêncio...
Foi pulando muito para fora da sala,
rumo à piscina de onde tinha saido o peixe.

Eles o seguiram... O homem nú se jogou na água,
queria o fundo,... mas voltou à tona.
o fez novamente, voltou à tona.
Aquele ritual era novo.

Quando seu braço e mão se estiraram na direção das cordas
e segurou como nunca havia segurado antes.
Olhou e viu, como se nunca houvesse visto antes.

"Sai da Água" Alex, disse uma voz, ele ouviu e entendeu
perfeitamente.
"Não posso, disse para si mesmo,
seus músculos paralizados pensaram.
Sou um peixe.

Alex, você não é um peixe, você é um animal humano.
Venha até aqui, ou iremos buscá-lo.
Entendeu mas seus músculos não funcionaram,
eles foram, sem temor algum,
e o trouxeram para fora da piscina,

Sentaram-no em uma cadeira bem apropriada.
ao sol, o homem ficou parecia dormir,
cochilar, sonhar, meditar,
qualquer coisa que respira.


meu pensamento pensou sozinho.
"É a tal da mágica, aquela dos circos,
dos palcos, onde enfiam espadas
nos troncos das moças e cortam os rapazes,
o peixe deve estar debaixo do assoalho,
e aquele homem é um ator,
isto talves seja parte de uma filme,
um cenário... qualquer coisa do gênero artístico.

Acompanhava os acontecimentos sem nunhum assombro,
os atores são capazes de tudo,

Seu folha se aproximou de mim,
um sorriso misterioso,
daqueles que a gente só vê nos olhos,
das pessoas que escondem profundas coisas.

Entendi... ele era o diretor.
tinha sacado uma grande jogada.
Porisso aquele ar... além das quadras.


Viu? Sentiu, adivinhou? Pressentiu, presencioou
A grande máscara?
Acabamos de preparar uma delas...
tantas outras já preparadas e utilizadas.
Mas esta é especial...

Fizemos uma máscara para aquele peixe.
Uma máscara de homem para ele.
Agora ele será peixe e será homem.
Tudo no mesmo momento!
Fantástico.

Seu folha parecia babar de satisfação.
Não será apenas mais um homem,
nem será somento mais um peixe,
é de fato uma nova personalidade.


Eu é que sou doido!
neste mundo sem freio.
"Me sinto muito confortável no meio dos atores e atrizes"
Nem penso na ciência,
ou na religião e seus mitos.

Deixo o teatro conduzir a platéia,
faminto de aplausos,
e a vejo delirar, toda noite,
com as fantazias de suas almas
desenfreiadas.


Sim, fizemos a máscara... nela tem
histórias, tão verdadeiras como aquelas
que nunca aconteceram e que nunca acontecerão.

Uma história profunda contada à
cicatrizes, ferimentos
que não doem mais mas que lembram...

qualquer batalha,
qualquer perda, qualquer folha
de navalha, qualquer
pedra, qualquer enredo.


Amanhã será o dia em que ele
acordará, tão homem e tão peixe
como se nunca tivessem se separado.


E cada um de nós que já mergulhou
nas histórias das máscaras,
acabou se conhecendo, se descobrindo,
numa nova face, tão antiga,
e tão rescente, que não pode haver nada mais sedutor
e primordial no mundo.

Você, diz seu folha, é convidado a presenciar
a transformação... muitas experiencias,
nos darão frutos imprevisiveis...
imprescindíveis para seguir sem destruir
o que se fez até agora.

O que você acha de mim?

"Estou muito feliz de estar aqui,
neste momento inesperado" respondi, sorrindo,
não vai me liberar umas imagens?

"Quem sabe..." Duvido que sim...!

domingo, 5 de julho de 2009

O cientista "máscara" - conto maria melo - brasil - roteiro para cinema um filme de amor


Ligou, ajustou e já!
Bom dia... apresento-me. Sou Folha,
O cientista máscara.
Não folha de registro nem folha da igreja,
sou folha da natureza,
áspera.


Minha ficha? Ah a folha corrida?
Pois sim, antes de ser cientista, eu era artista.
Artista sempre falido.
Fazia esculturas lindíssimas
em ouro maciço
mostrava-as na praça,
achavam graça e diziam
não vale nada isso!

Precisava mais que talento,
quem sabe se eu fosse belo,
feito narciso, me olhasse
no espelho e me achasse bonito...
não isto nunca existiu
sou mais feio que um cabrito.

Então decidi construir a máscara,
não inventá-la, porque já foi inventada
mas utilizá-la renovada,
para as minhas complexas necessidades.

Mudei-me para cá, este canto
de encanto e cantos de sabias.

Uivado de onça má e devoradora,
por isso virei logo uma folha!
pra ela não me encontrar!

Por artimanha minha e da natureza,
pude então me adaptar.


Sou folha de verdade, de qualquer planta do matagal.


Agora vire sua câmera para o lado de lá,
olha longe aquela sala transparente
enorme bem cheia de gente,
todos a trabalhar.
Faz parte da minha equipe,
de cientista maneiro
que alguma coisa quer aprontar.

Todos são folhas também,
e tem em qualquer parte do corpo
uma tatuagem sincera,
que mostra a árvore mãe,
de onde um dia eles vieram!

Vieram da cidade, com suas malas vazias,
buscar por aqui, aquilo que lá nem conheciam.
Hoje vão visitar os parentes,
sorrindo de pura alegria.

Não choram, não reclamam má sorte,
atrás daqueles paredes transparentes,
ainda há infinitas portas.


Agora, vire, novamente para o lado do nascer do sol,
vê aquele imenso campo de futebol
cheio de garotos, correndo e rindo...
vieram das vilas vizinhas,
atolados de pobreza,
alguns nem pão na mesa tinham!

Vê do lado o parque, simples,
com árvores e cipó, lagos pequeninos,
pedregulhos e cachoeiras,
tudo isto paras crianças
se divertirem, brincadeiras,

E como são prazeirosas no seio da natureza.
olhe nos seus olhos,
enquanto brincam, aprendem
grandes destreza.


Ali mesmo, pelas redondezas,
vê uma sala silenciosa, é uma biblioteca,
com o que tem de melhor,
dos nossos mais honrosos poetas.
E quando falo poeta,
me refiro do sonhador ao profeta.


Agora voe devagarinho ao redor,
vê a vaquinha amarela,
chamo-a de mamaezinha de aquarela.
Os pássaros, de tantas espécies,
esvoaçando pelas janelas?
são filhinhos da terra,
O cachorrinho pintado,
o cachorrão esparramado no chão...

A tartaruga dorminhona,
o macaco bugiganga,
o pavão pouco a vontade,
perdido de tanta vaidade,
perto do cabrito lambão

E mais não sei quantos bichos,
todos espalhados pela água, pelo ar e pelo chão.

Não há nenhum feitiço
é só a tradição da vida.

Mas uma surpresa... olha lá na piscina
transparente,
que belo peixe!
E só tem aquele! Está molho,
esperando o desfeixe!

É peixe, o grande segredo.
pelo menos será um dos primeiros.


Estou parado com minha filmadora desligada,
Seu folha, toma fôlego, toma água.
olha para os lados,
É verdade, sou folha não pensa.

Chama algumas pessoas
lá da sala transparente,

Vieram rindo, conversando e olhando,
são normais, paranormais ou anormais.
Eu que nada sei.

Seu Folha apresentou-me seus amigos:

Aqui estão eles, são bons no que fazem.
Confio em cada um,
porque sonham e trabalham
para melhorar,
suas vidas não são eternas,
mas são sinceras
e sinceramente vividas,
vale a pena presenciar o que você vai presenciar.

Foram todos para a piscina,
homens e mulheres,
tiraram seus uniformes de trabalho na sala,
e se jogaram na água,
nadando de cá para lá,
de lá pra cá,
foram formando uma roda...
Enjaularam entre braços e abraços,
e peixe e o trouxeram para fora.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Depois conto... dia seguinte parte II maria melo - brasil

O espelho tava calado, só refletia
um certo estado do presente.
Examinou-se curiosa e muito feliz:
Afinal o que importa é ser linda!

Se branca ou negra, seus pais não
a entenderia mesmo. A questão não era a cor da pele
mas o formato das idéias!
Isto coisa que ela não esqueceu.
Seu pai sempre bronqueado, até infeliz,
por causa dela, sua mãe, chorava todo
dia, também por causa dela,
que droga, nem que fosse doente,
eles sofreriam tanto,
quanto sofriam por causa dos seus parâmetros
ou não parâmetros.

E ter idéias não convencionais
às vezes pode parecer crime, merecer punição e castigo,
restrição e despreso,
pode provocar injustiça,
pode despertar a maldade,
cultivar a inveja...
causar temores, terrores,
E por fim esta banalidade,
pode provocar um um dilúvio
sem dimensão, de arrempendimento,
que chega a ser pecaminoso,
o estrago que fará no coração!

Enquanto pensava foi abordada:
Vamos conversar na sala ao lado,
Você e eu e as paredes!

As paredes? Claro, seus pais,
também estarão lá,
só que eles não sabem que você os ouvirá!
Também estarão lá alguns de seus visinhos,

Meu Deus, o que dirão de mim,
se nem meus próprios pais me conhecem?
Que dirão os visinhos, os amigos,
agora que sou assim,
de onde me reconhecerão?


E foram eles para a sala da conversa,
da estória avessa,
contada por uma mulher,
numa noite de frio em sua vida.

Depois conto - o dia seguinte - Maria Melo - Brasil

Ela tava lá encostada no portão da casa, dormindo
feito criança. Alma abandonada nas mãos da vida,
fosse o que fosse, aqueles homens salvadores,
a levariam.
Ei moça, acorda, não pode dormir na rua.
Acorda... moça, chaqualharam-na
muitas vezes, nem os olhos abriu,
nem resmungou, parecia mesmo uma
menininha negra...dormindo
confortavelmente no colo de alguém!

Eles a levantaram a ampararam e a levaram.
Na casa de acolhimento,
a colocaram no colchão
e cobertdores e travesseiro.
Talves houvesse por lá alguns sonhos bons também.
para atender aqueles que necessitam
da assistência social e amparo
para seus passos mais dificeis.

Bonita dormindo, bonita sonhando,
resmungando, bonita assim,
inteiramente negra,
com sua boca vermelha de negra,
olhos e nariz e cabelos
e pernas e mãos negras,
bonito e lindo corpo negro,
bonita e linda mulher negra.

Bonita mulher, bonita menina,
com sua alma tão igual,
e seus sonhos, também.
com seu coração batendo, ressonando.
Ia a vida levando, ali mesmo,
naquele lugar, onde ficavam os abandonados,
ou aqueles antes de tudo,
que abandonam tudo!

No dia seguinte acordou cedo,
antes mesmo dos assistentes sociais,
espichou-se e pensou:
que lugar é este e como aqui estou?

Eles entraram na sala.
Bom dia, dormiu bem? Refletiu?
Acordou melhor? Quer um café,
na mesa, entre nós?

Sem nenhuma surpresa,
ela foi se levantando, remexendo as roupas,
se arrumando,
tentando se ver em algum espelho,
sua pele fresca e seus cabelos,
eram belos de qualquer jeito.

Sorriu sem constrangimento,
como se sorriem os jovens,

Vamos tomar um café, disse o assistente,
depois vamos conversar, você deve ter
muita estória para contar.

Foram para outra sala, calados,
ninguém tinha pressa de começar.
Tomaram café como se fosse familia,
todos riam, todos brincavam
alguns já moravam ali,
outras nunca mais voltariam.
Mas quase ninguém tinha
uma estória que quisesse contar.

Ela era diferente,
tinha que contar estória, e muita estória,
mesmo que ninguém a quisesse ouvir,

Sabia, agora de manhã, um monte
de coisas que ontem não sabia.

Seus pais a rejeitaram. Seus pais eram brancos
de olhos azuis, seus pais eram ricos,
seus país não a reconheceram.

Seu namorado era negro,
tão negro e tão lindo quanto ela,
Mas provavelmente ele viajou para longe.
e nem endereço lhe deixou.
Isto ela não se lembrava.

Nasceu e cresceu na mesma rua,
todos a conhecia...
Ela sabia que não era negra,
que nunca fora negra,
que não era louca, que não era adotiva,
que não estava drogada,
nem bêbada,
só estava cansada e com muito sono!
Sabia isto como qualquer pe

Tudo estava muito simples,
a rua, a casa, os pais, os visinhos,
o namorado, a casa de dança,
tudo era muito conhecido dela.

Só uma coisa não cabia em lugar nenhum:
Aquela sua cor negra,
toda sua indumentaria carnal,
havia se transformado
de mulher branca
em mulher negra.

É claro... seus pais não a reconheceria, mesmo.


Depois do café pediu licença,
foi ao banheiro, olhar o espelho,
mais atentamente,
espelho sem truque, sem mágica
que lhe mostrasse a verdade,
pelo menos uma verdade,
entre tantas escondidas nele!

domingo, 31 de maio de 2009

Conto depois! Parte II - Maria Melo - Brasil

Leve-me para casa disse ao seu amor,
sorrindo como só os jovens sabem sorrir,
amando como só eles sabem amar.

E se foram... uma rua outra rua,
o dia vinha vindo rapidamente.
Mas chegariam ainda no escuro!

Chegaram. Ele parou seu lindo carro,
numa bela casa, num elegante bairro.
"Querido, me deixe e vai logo, vai amanhecer,
não quero que meu pai veja
você aqui comigo, ele não entende o nosso amor.
E quero ficar em paz
pelo menos pra dormir um pouco.

Você que sabe... beijinhos mais beijinhos,
ele saiu bem devagar, sem ruído,
ainda no escuro da madrugada,
ninguém viu nada.


Ela ficou em pé parada em frente ao portão,
esperando ele desaparecer
em poucos segundos
tudo já tinha se apagado na sua mente.

Então abriu a bolsa e pegou as chaves,
para abrir o portão, tentou e tentou
não conseguiu... experimentou todas,
nenhuma abriu. Que absurdo
Terei me enganado quanto às minhas
próprias chaves?

Não queria acordar meu pai, minha mãe,
nem a passarada, ou a cachorrada,
ou a vizinhança bem no meio da madrugada.

O frio, o sono, a fazia cair em pé...
Quero minha cama, minha coberta, meu travesseiro,
quero tudo, meus sonhos, meus pesadelos,
só não quero ficar aqui a noite inteira.

Foi para a campainha e tocou,
uma, duas, três, dez!
A luz acendeu... Levantaram-se,
olharam pela janela,


Demoram-se mas a campainha insistia tocando
calorosamente, ela começava a falar alto:
Poxa, desculpa por ontem
abram logo a porta, estou um monte!

Vieram os dois... o pai e a mãe dela!
Pararam alguns passos do portão, sem as chaves,
O que aconteceu moça?
Errou de casa? Tá alcoolizada, drogada?
Doente, acaso a conhecemos?
Para nos chamar a estas horas?

Parem com isto, abra o portão, quero entrar,
quero dormir! Estou cansada, com frio,
por favor me desculpem
Prometo não fazer mais isto!

Não a conhecemos. Nunca a vimos antes,
Se nos falar um número telefônico,
chamaremos seus familiares.

Vocês são loucos... mãe sou sua filha,
ainda ontem por mim você chorava,
moro nesta casa, tenho direitos,
como podem me renegar?

Está escuro, disseram eles, mas veja:

Somos branquinhos, de olhos azuis,
cabelos quase vermelhos,
você é negrinha,nunca se olhou no espelho?
Quer ver como você é diferente de nós?

Aí ela viu... de fato eles eram brancos,
muito brancos, olhos azuis, não eram seus pais?
Então ela duvidou que ela fosse,
realmente negra... Talves fosse um truque
daquele espelho,
Ou um sonho, bebedeira, qualquer outra besteira,
mas nunca em hipótese nenhuma,
negra, naquele momento ela poderia ser!

Porque seus pais... ela conhecia muito bem,
desde sua entranhas, afinal,
eram seus pais, ninguém mais,
por mais estranhos que fossem!

Eu não sou negra!
É sim... tudo bem que não aceite
mas você é negra,
nós não temos nada com isto!

A mãe dela foi buscar um espelho
Olhe querida, você é negra,
é linda, é jovem, mas está louca,
não somos seus pais, você não mora
aqui e esta não é sua casa,

E você não tem o direito de invadir
nossa noite de sono, nossos sonhos,
nossa vida, com sua loucura,

Se você não está precisando de ajuda,
vá embora, se nos der um número de alguém
que a conheça chamaremos,

Ou vamos chamar a polícia!

E foram voltando para dentro!
A moça começou a chorar:
Mãe, pai, não façam assim,
deixem-me entrar,
nunca mais desobedecerei vocês!

Vamos chamar a assistência para pessoas drogadas.


Deram-lhe as costas.
Ele sentou-se no chão, confusa,
parecia uma criança de dois anos
de idade... chorava baixinho,
como se os pais fosse passear
e a deixassem sozinha.

Não havia nada que pudesse fazer,
O portão absolutamente trancado,
Dormiu ali mesmo, choramingando,
de mansinho,
por pouco tempo, é claro,
logo depois, os faróis de um silencioso carro
deslizavam suavemente na neblina da madrugada,
Vinham levar a negra,
que dormia feito criança na calçada
pedindo papai e mamãe
cama quente e carinho,
quem sabe ela ganhava!

O estranho

 Aquele que me é estranho Me são estranhas suas lágrimas. Até posso vê-lo como uma rosa que se orvalha. Não entendo sua dor nem do coração n...